quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CAFÉ PRETO E PÃO COM MANTEIGA

Porto Alegre, 14 de maio de 2008.

Havia um homem sentado a minha frente. Havia pessoas dispersas em seus pensamentos e outras que falavam freneticamente. Tomada de certa absorção, ouvia casos de amor, ouvia reclames, ouvia coisas que não faziam sentido. Durante alguns minutos não fiz o pedido a garçonete. Ocupei meu tempo e meus pensamentos nas cenas que a vida interpretava, ora através do casal apaixonado que trocava sorrisos e confidenciava olhares, ora através da dupla de amigos que conversavam e riam entusiasmados. O encantamento só foi interrompido pela voz apressada que abordava e insistia com a “frase feita” mesmo diante da minha indiferença. Era a garçonete cuja angústia resumia-se em anotar meu pedido.
Devolvi minhas observações ao homem que, reservado à humildade de seu silêncio, tão somente escrevia. A pequena distância de um corredor entre nossas mesas separava-nos. Ele tinha os cabelos presos e grisalhos, na altura dos ombros, que pareciam não carregar o peso da sua idade. Um dos braços encontrava-se apoiado no caderno, enquanto o outro, junto à cabeça, batia os dedos na direção do cérebro, como se pudessem agitar as idéias.
A mesma garçonete que anotara meu pedido dirigiu-se ao estranho introspectivo e disparou a mesma pergunta que me fizera anteriormente. Sequer articulou outra frase. Sequer empregou outra entonação vocal. Apenas mudou o artigo e o pronome. Não pude ouvir o que o sujeito dissera ou talvez não quisesse. Satisfiz-me por acompanhar o movimento dos seus lábios. Raramente costumo fazer leitura labial. Atrevo-me, no entanto, a adivinhar pensamentos.
Por um momento desviei meus sentidos ao casal apaixonado cujos olhos me cuidavam no determinado tempo. Eles flagraram o aguço da minha sensibilidade inequívoca, atenta e analítica aos seus movimentos no justo instante. Jamais me sinto incomodada com a atenção alheia. Nunca pretendi ser invisível a ninguém. O homem que escrevia, entretanto, não reparava nos acontecimentos a sua volta, ele estava só, em seu mundo recluso, e permaneceu só. E apesar da minha total indiscrição, indispôs-se a me perceber.
Era imensurável a rotatividade de pessoas no local, algumas apressadas, outras nem tanto. A minha pressa era por notá-las. Aquelas que passavam pela calçada da rua seguiam na direção de lugares que certamente eu alcançaria, caso minha curiosidade não estivesse obcecada em descobrir o que o homem dos cabelos grisalhos escrevia naquele caderno comum.
Seus gestos eram secos, lineares e constantes. Seu olhar transparecia certezas incomuns. Vestia uma camisa desbotada por cima da regata limpa e surrada. Não pude descobrir o que ele escrevia, contentei-me em saber que, naquele instante, ele guardou o caderno e a caneta, voltou-se para a garçonete, ajeitou-se no banco e, por fim, cuidou de cessar sua fome com café preto e pão com manteiga.

2 comentários:

El Poeta disse...

MUITO BOM! PARABENS PELA CRIATIVIDADE... TU ÉS CHEGADA NUM TIOZÃO, NÉ?

Professor Luciano Fernandes disse...

Bacana teu blog!! ótimo texto!!!!
Vamos organizar um grupo de blogueiros de guaíba para difundir um pouco dessa cultura!!! Virtual mas é uma cultura!!
Um forte abraço!!!