domingo, 21 de setembro de 2008

Essência VI - Amor sem fim

A linha do horizonte
Traço do mundo
Linhas do acaso
Até onde chegará o nosso amor?

O céu azul iluminado
Palco dos pássaros
Direção do vento
Pra onde voará o nosso amor?

A grama verde
Úmida e cintilante
Lençol de seda do chão
Por onde pisará o nosso amor?

Horizonte sem fim
Vôo livre
Chão batido
Amor aquecido...

Essência V - Se fosse o fim

Se fosse o fim
Viveria infeliz
Enxergando muros e aguaceiros
Catando pedaços de mim

Se fosse o fim
Viveria infeliz
Forjando sorrisos e carcereiros
Jogando confetes e festim

Se fosse o fim
Viveria infeliz
Chorando como um flautim
Escutando Elis ou Tom Jobim

Se fosse o fim
Viveria infeliz
Sem nenhum querubim
Cantando pra mim

Mas esse não é o fim,
Meu alecrim!

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Essência IV - "Temores e Tremores" por Caroline e Jean Allama

Temo o passado
Quando ele me apresenta
Casos mal resolvidos,
Que reviram meus pensamentos
Devastando, ferozmente, memórias aprofundadas
Onde não há abrigos seguros!

Temo a saudade do presente
Quando ele me apresenta
Bons motivos,
Que povoam meus sentidos
Causando impactos jamais vivenciados
Onde não há limites pré-estabelecidos!

Temo o futuro
Quando ele me apresenta
Folhas em branco,
Que buscam ser preenchidas
Cavando buracos no fundo do meu peito
Onde não há fundo reconhecido!

Temo te perder ... Tremo ao te ver!


Se temes o passado, afirmo-te convicto:
Não há antes se não houver depois...
Haverá no amanhã um lugar para nós dois?
Querer um ao outro, revirando o pensamento
Será feroz e devastador quando, no além
da memória, preservar-se o sentimento.

Se temes a saudade, eu temo a expectativa,
De te ver no acaso de alguma praça,
De te querer no indeciso de alguma esquina,
E povoar os meus sentidos de ávidos impulsos...
Na tua ausência, ainda arranjo um caco de telha,
escrevo um poema, e corto meus pulsos...

Não há folhas em branco no futuro do amor,
Tampouco se sabe os registros do próximo agosto,
Se o poema escrito a lápis o tempo desintegra
E o traço até então indelével é vazio qualquer...
Aos teus braços volto antes do nada ser tudo...
E homem serei único, de uma única mulher.

Temo ser perdido... Tremo ao ser visto...

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CAFÉ PRETO E PÃO COM MANTEIGA

Porto Alegre, 14 de maio de 2008.

Havia um homem sentado a minha frente. Havia pessoas dispersas em seus pensamentos e outras que falavam freneticamente. Tomada de certa absorção, ouvia casos de amor, ouvia reclames, ouvia coisas que não faziam sentido. Durante alguns minutos não fiz o pedido a garçonete. Ocupei meu tempo e meus pensamentos nas cenas que a vida interpretava, ora através do casal apaixonado que trocava sorrisos e confidenciava olhares, ora através da dupla de amigos que conversavam e riam entusiasmados. O encantamento só foi interrompido pela voz apressada que abordava e insistia com a “frase feita” mesmo diante da minha indiferença. Era a garçonete cuja angústia resumia-se em anotar meu pedido.
Devolvi minhas observações ao homem que, reservado à humildade de seu silêncio, tão somente escrevia. A pequena distância de um corredor entre nossas mesas separava-nos. Ele tinha os cabelos presos e grisalhos, na altura dos ombros, que pareciam não carregar o peso da sua idade. Um dos braços encontrava-se apoiado no caderno, enquanto o outro, junto à cabeça, batia os dedos na direção do cérebro, como se pudessem agitar as idéias.
A mesma garçonete que anotara meu pedido dirigiu-se ao estranho introspectivo e disparou a mesma pergunta que me fizera anteriormente. Sequer articulou outra frase. Sequer empregou outra entonação vocal. Apenas mudou o artigo e o pronome. Não pude ouvir o que o sujeito dissera ou talvez não quisesse. Satisfiz-me por acompanhar o movimento dos seus lábios. Raramente costumo fazer leitura labial. Atrevo-me, no entanto, a adivinhar pensamentos.
Por um momento desviei meus sentidos ao casal apaixonado cujos olhos me cuidavam no determinado tempo. Eles flagraram o aguço da minha sensibilidade inequívoca, atenta e analítica aos seus movimentos no justo instante. Jamais me sinto incomodada com a atenção alheia. Nunca pretendi ser invisível a ninguém. O homem que escrevia, entretanto, não reparava nos acontecimentos a sua volta, ele estava só, em seu mundo recluso, e permaneceu só. E apesar da minha total indiscrição, indispôs-se a me perceber.
Era imensurável a rotatividade de pessoas no local, algumas apressadas, outras nem tanto. A minha pressa era por notá-las. Aquelas que passavam pela calçada da rua seguiam na direção de lugares que certamente eu alcançaria, caso minha curiosidade não estivesse obcecada em descobrir o que o homem dos cabelos grisalhos escrevia naquele caderno comum.
Seus gestos eram secos, lineares e constantes. Seu olhar transparecia certezas incomuns. Vestia uma camisa desbotada por cima da regata limpa e surrada. Não pude descobrir o que ele escrevia, contentei-me em saber que, naquele instante, ele guardou o caderno e a caneta, voltou-se para a garçonete, ajeitou-se no banco e, por fim, cuidou de cessar sua fome com café preto e pão com manteiga.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Essência III - Quero

Quero!
Como eu quero o teu amor
Os nossos corpos em ardor
Quero a tua mente, inquieta,
pensando em mim

Quero!
Como eu quero as tuas mãos
Segurando as minhas mãos
Quero a tua súplica
Implorando por mim

Quero!
Como eu quero os teus olhos
Embriagados pelos meus olhos
Quero as tuas palavras
Inspiradas por mim

Quero!
Como eu quero a tua pele
Aderida a minha pele
Quero a tua fúria
transtornada por mim

Quero!
Como eu quero ... Tu só pra mim!