quarta-feira, 16 de julho de 2008

Ana Lúcia

Ana Lúcia mora numa casa de madeira
na Vila Madureira
As cortinas floreadas escondem os buracos na parede
O armário e a geladeira

são enfeitados com guardanapos cor de limão
Os Lençóis e as roupas

são estendidos nas cercas das ilusões

Quando acorda

contempla, preguiçosa, o sol do bom dia
Sobe o morro,
desce o morro
todo dia útil
Indo pro trabalho
equilibrando-se num salto plataforma

calça justa e blusinha bordada

Trabalha no boteco

num sobrado velho
Vende leite, vende pão
espanta a solidão
ao som do sambista favorito
Enfeita o balcão
com sua beleza de arrasar quarteirão

Anda sonhando com o galã da novela das oito
Trazendo flores amarelas

iguais a do salão
Vindo do bairro majestoso

perto da avenida
São Sebastião
Ah! Que doce ilusão!

De noite se enfeita
veste meias pretas, saia rodada
e blusa de paetês e rendas

Prende o cabelo negro
com presilhas coloridas
Volta para casa

No sol do meio dia
exausta de euforia

Pedro, Paulo e José já pediram sua mão em casamento

e como são doces os argumentos
dos pobres corações

Ela recusou um a um
sem dó nem piedade
Porque ainda espera o cavaleiro
dos seus sonhos mais ardentes
Aquele de beleza estonteante
Perfume inebriante

Reza pra santa de sua devoção

implorando que ele chegue
antes das rugas da desilusão...




sexta-feira, 11 de julho de 2008

Inominado

Inominado I

Aproxima
com pressa
Toca
fundo
Apalpa
de leve
Morde
com raiva
Acalma
a pele
Assopra
com vontade
Implora
por um segundo
Incita
a demora
com êxito
Arrastando
por horas
Dobra-se
com destreza
Lança-se
seguro
Arranca
suspiros engasgados
Respira
aliviado
Ao sentir
os desejos saciados


Inominado II

O que será que dá?
Que nos faz rezar a mesma ladainha
Que se faz presente em todos os pensamentos
Que maltrata e consola
O que será que dá?
Que o pôr-do-sol faz lembrar
Um romance não basta pra chorar
Que toma todas as canções de amor pra si
O que será que dá?
O corpo deseja tão ardentemente
que nem um banho frígido cessa a vontade de queimar em brasa,
e consumir pouco a pouco todas as nossas forças.
O que será que dá?

Folhas Secas


Lá do alto da laranjeira
Caem as folhas sobre o chão
Já à sua espera mórbida
De cansaço e de desilusão
Desloca o vento sobre as folhas
Protegendo-as de um pisão
Tão bonitas são as cores
Das secas folhas lá no chão
Mais bonitas que as vivas
Mais falantes que o jambolão

segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Fernando e Olívia" AGUARDEM!

(Fragmentos do conto "Fernando e Olívia" de Caroline Rutkoski e Jean Allama)
A noite estava fria...
no sétimo andar...
Não havia ninguém do outro lado...
dois passos para alcançá-lo...
Estou disposto a pagar o preço...
Cala essa boca. Você é um imbecil...
Ela mordia com força os lábios inferiores...
proferiu palavras infames...
palavras seguidas de uma risada sórdida...
Cambaleou...
sentado nos calcanhares e de costas para a porta do quarto...
O coração não se esvazia dessa forma, tão facilmente, como quem abre a tampa do ralo e deixa escorrer...
Toda essa nostalgia era inútil e só levava à única lembrança que valia algum tostão.
De pronto Fernando estava diante da secretária eletrônica...
variações repentinas do timbre vocálico...
O Homem olhou pelo espelho...
Vamos, prossiga...
olhava para rua através do vidro do carro...
Olívia...
Fernando...
Eu te amo...

Palavras do apóstolo Paulo aos Coríntios - Fonte: Bíblia Sagrada - 1 Coríntios 13: 1 - 8

"Se eu falar em línguas de homens e de anjos, mas não tiver amor, tenho-me tornado um pedaço de latão que ressoa ou um címbalo que retine. E se eu tiver o dom de profetizar e estiver familiarizado com todos os segredos sagrados e com todo o conhecimento, e se eu tiver toda a fé, de modo a transplantar montanhas, mas não tiver amor, nada sou. E se eu der todos os meus bens para alimentar os outros, e se eu entregar meu corpo, para jactar-me, mas não tiver amor, de nada me aproveita. O amor é longânime e benigno. O amor não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, não se comporta indecentemente, não procura os seus próprios interesses, não fica encolerizado. Não leva em conta o dano. Não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade. Suporta todas as coisas, acredita todas as coisas, espera todas as coisas, persevera em todas as coisas. O amor nunca falha"

Fonte: Bíblia Sagrada - 1 Coríntios 13: 1 - 8

Tapa na cara

Verdade seja dita
Com tapas na cara da falsidade
Os desmascarados fazem cara de coitados
Enquanto os hipócritas da segunda fila
gritam desvairados: Recalcados! Mal-amados!

Eu respondo:
Serão os próximos!
Poupam suas salivas envenenadas
Que finge estar solidárias
Com seus comparsas

Despertam sentimentos com palavras copiadas?
Temeram?
Tremeram?
Não assumem seus clichês?

Eu vou repetir:
Só é digno das palavras
Quem tem raízes aprofundadas
O resto é cafajestada
Mentiras alimentadas
Por aqueles que andam com a cara estampada

Vem

Vem e não reclama da longa espera
que eu tenho causado a ti
Vem e puxa um assunto qualquer
Não traga as tuas roupas
Vem nu,
sem as outras
Vem e fica para o jantar
Vem com a tua pressa
Descarrega o teu ódio
Vem,
e vem sem medo
Sem perguntas e respostas
Que eu te acalmo num segundo
Vem assustado
Não traga fardos
Vem em missão de paz
Vem de pernas bambas
Não demora
Vem sem memória
Vem de mãos abanando
Vem sem pedaços faltando
Não chegue murmurando
Guarda os teus lenços pra depois
Não traga cruzes de algozes
Vem e traga a redenção
Não atira essa pedra, não!
Vem sem luvas
Vem sem papas
Traga línguas,
incensos e passas.

domingo, 6 de julho de 2008

Amigo poeta

Meu caro amigo,
Amigo das palavras
Amigo de curta data
Amigo de alma grande
Quem sente a poesia?
Quem compreende cada estrofe?
Quem compartilha fantasias?
Quem me surpreende com o vocabulário escamoso,
De escândalo amoroso.
Tu
Tu que decifras as minhas frases soltas
Implicando
Justificando
Do sentimento que grita nos meus ouvidos
Pois só quem já chorou,
sabe como uma curvatura de lábios bonitos transforma lágrimas em sorrisos.
Foste tu que ofereceste os cigarros e o copo de vodca
ao amor
Eu apenas assisti
E assim, vendo o amor embriagado
Assistimos calados
Fingindo não sofrer
Fazendo de conta que somos apenas expectadores
Das tragédias alheias
Se distraídos ou destratados
Como andamos,
andamos muito...

"Calos" por Caroline Rutkoski e Jean Allama




Tu que zombas das minhas angústias
Tu que danças em cima dos meus calos
Que causa ferida
Tu que andas tão distraído
Que tem sentimento traído
Tu que não me escuta
Tu que és vulnerável
Que és dissimulado
Tu que ama sem pudores
Sem medidas, sem rancores
Tu que mata a minha fome
Tu que não escolhe as calçadas que andas
Porque anda despreocupado
A rir dos apressados.
Tu, tu e tu.
Tu que fala sobre o nada
Que dá a gargalhada mais ouriçada
Tu que tens o meu intenso amor
Leva contigo a minha dor
Sem braço, sem graça
Assim calado me vou.



Zombar das angústias são impropérios suicídas que saltam dos verbos e fazem folia com as tragédias dos outros.
Aos pés que trazem calos repisados, um tango assepsia os ferimentos e empresta asas à condução dos corpos.
Se distraído ou destratado, como ando, ando muito, sempre indo, ao fim das ruas sem saída que há em mim, inobstante atraiçoado e como nunca sensível,disfarço-me entre os celeiros, fingindo não sofrer, consumindo meu desespero,enquanto te deitas com outros corpos sobre as palhas transmutadas do meu ego.
Não há pudor que obstrua os corredores do extremo êxtase.
Não há geometria que delimite nem dê limite a fome que sentes, sem rancores, um anseio carnal, descomunal aquém dos mapas e das escolhas, das rotas e arbítrios.
Outro dia me disseram que o teu sorriso não valia uma lágrima.
Eu discordei, indiferente, como se o tempo, sem pressa, pudesse remediar os equívocos e ajustar conceitos, pois só quem já chorou sabe como uma curvatura de lábios bonitos transforma lágrimas em sorrisos.
Restam enfim. O nada e eu. Eu e o vazio. Silêncio em mim.
Que gargalhadas são aparências exaltadas de uma angústia há tempos reprimida...
de um amor que não possuo... de um ardor que carrego...
que nega um abraço e acha graça do sofredor...
calado que se vai.

Desamor

Seus pés o conduziam para casa
Era tão difícil de chegar até lá
Por onde passava
tudo lembrava ela.
Cada passo, e uma dor no peito
Não poderia suportar

Pensava em cada palavra que ela poderia dizer
E assim mudar o destino,
fazendo-o voltar ao curso normal.
Cada palavra e
tanto penava,
tanto pensava
Poderia ela dizer:
Que nunca tinha deixado de amá-lo.
Que todo desamor
Fosse dor do passado
E que nada tivesse mudado
antes fosse o mal do amor
desajeitado

Repetia baixinho:
_Tolice é amar
Planejava, praguejava:
_Ela não pode deixar de me amar. Ela não é vulnerável.
Não é mentirosa.

Seus olhos turvos
Olhos d’água
Refletiam a tristeza da alma
Choravam e não cessavam em molhar os lábios

Entre os dedos passavam os cabelos,
Lembrando o toque dela
Suave e ofegante
Delirante!

Próximo da sua casa
Caminhavam seus pés em busca do calor do cobertor
Chovia forte

Pensava enquanto engolia sal
Afogava-se na chuva
As palavras eram temperadas com a amargura da alma,
E gritavam com os muros:
_ Filha duma puta!
_ Filha duma puta!
No que pensavas enquanto me beijava? Enquanto falava que me amava?

Dobrando a esquina
Repugnava com o cheiro do mendigo,
que atirado na calçada
Tem sua vida decepada
E luta contra a lucidez da vida desgraçada

Lembranças
Tormentos
Duras ânsias
Maldita é
a esperança

Abriu a porta
A casa ainda estava perfumada
Limpa, arrumada
As roupas ainda estavam no armário
Todas aprumadas

Ela havia deixado um recado na porta da geladeira:
_ Tua camisa branca foi passada e guardada.
Me espera pro jantar? Logo estou de volta.
Te amo.

Relia o bilhete buscando
apagar da memória o e-mail recebido pela manhã:

Ontem quando te abracei
Logo depois do jantar
Quase desabei
Alguma coisa mudou
A culpa não é tua
Tampouco minha
Por favor, entenda
Não voltarei para casa
Não me perguntes para onde vou
Hoje está chovendo
Mas no domingo fará sol
Acredite!
Acabei de ouvir no rádio,
que hoje
tocou pela última vez
a nossa canção de amor.
Ouça:
Terás teus três filhos
Não duvide do amor.
Quero te ver bem, meu bem.
Até breve!

Chorou
Encerrou a lembrança,
Apoiou-se na cama
Tirou os sapatos
Deitou com a roupa molhada,
Misturado com a sujeira dos dias sem ela.

Ainda pensou:
_ Amanhã me atiro nos braços da primeira mulher,
Quem sabe até escrevo um samba pra falar de amor:
Posso esquecer você, tu vais ver...
Sorriu,

A embriaguez deitou com ele

E dormiram abraçados.

Tarde cinzenta de esperas avessas

Tarde cinzenta de esperas avessas
Dias de falta de desejos vulcânicos
Falta de memória dos beijos ardentes
Suspiros, gemidos de tédio.
Poeira nos cantos das travessas da sala
Cheiro do nada
Quarto escuro desarrumado
A luz, desajeitada,
entra pela fresta da porta
avista os livros empoeirados na estante
Frases soltas sem sentido
Peito vazio
Corpo sem alma
Carne sem sangue
Dragão sem fogo
Dias sem amantes.

O amor estava desfeito

"Duas mulheres à janela" , de Bartolomé Esteban Murillo

Falaram pra Joana que ontem ele declarou amor sem fim a uma outra. Contaram que, além de flores, ele ofereceu aquele famoso poema de Camões. Engraçado como as coisas mudaram de uns tempos pra cá. Ontem eu apostava num romance duradouro, embora as brigas ferozes e constantes fossem capazes de desfazer um sorriso, um abraço, um beijo. O amor reinava absoluto, majestoso no seu pedestal. O peito estufava cada vez que Henrique mencionava o nome de Joana. Quando contavam o que nutriam um pelo outro, era notável o sentimento de paixão. Todavia, entre promessas e apelos, sobrevivia um relacionamento um tanto estranho.
Eis que de repente o riso ficou nublado e não mais se ouviu sequer um dos dois mencionar seus nomes isolada ou mutuamente. Foram duas semanas e três dias. Por fim, silenciou a buzina do carro de Henrique, que às sete horas da manhã vinha buscar Joana para o trabalho.Mas o amor insistiu; não se dobrou diante da primeira briga do casal. Um dos envolvidos pediu a segunda chance. Não soubemos quem foi, acredito que houvera sido ele. E assim o tempo, voraz, acabou com a mágoa, com a desilusão, com as lembranças tristes, entorpecendo a dor. Esqueceram ambos do lado ruim dessa história. O tempo transformou tudo em saudade, a saudade em vontade. E eles se reencontraram, sem quaisquer ofensas, tampouco cobranças. O longo abraço, finalmente, encorajou-os a investir mais uma vez no amor. Assistimos tudo da janela e trocamos sorrisos de aprovação. Eles formavam um belo casal. Ela desfilava seu vestido novo. Ele sambava com sapatos novos. E por um longo tempo permaneceram assim. Sempre indo de mãos dadas, entre beijinhos e mordiscadas.
As moças paravam para apreciá-los, tão jovens sonhadoras também os invejavam. Mas, de repente — não sei quem foi o tolo — um deles parou para contabilizar os erros e acertos. E nessa conta o amor resultou negativo. Nada foi dito que pudesse mudar o rumo do desfecho. Ela soluçava. Ele chutava a parede de madeira. Ouvimos as discussões dolorosas. Deixaram de falar quando havia necessidade, deixaram de abraçar quando a vontade era recíproca. A covardia não permitiu que fizessem o que o coração suplicava. A razão debochou do coração e não quiseram parecer ridículos diante dos outros e de si mesmos. E quem soube compreender que era chegada a hora de se entregar? Nenhum dos dois.
O amor estava desfeito.