domingo, 6 de julho de 2008

Desamor

Seus pés o conduziam para casa
Era tão difícil de chegar até lá
Por onde passava
tudo lembrava ela.
Cada passo, e uma dor no peito
Não poderia suportar

Pensava em cada palavra que ela poderia dizer
E assim mudar o destino,
fazendo-o voltar ao curso normal.
Cada palavra e
tanto penava,
tanto pensava
Poderia ela dizer:
Que nunca tinha deixado de amá-lo.
Que todo desamor
Fosse dor do passado
E que nada tivesse mudado
antes fosse o mal do amor
desajeitado

Repetia baixinho:
_Tolice é amar
Planejava, praguejava:
_Ela não pode deixar de me amar. Ela não é vulnerável.
Não é mentirosa.

Seus olhos turvos
Olhos d’água
Refletiam a tristeza da alma
Choravam e não cessavam em molhar os lábios

Entre os dedos passavam os cabelos,
Lembrando o toque dela
Suave e ofegante
Delirante!

Próximo da sua casa
Caminhavam seus pés em busca do calor do cobertor
Chovia forte

Pensava enquanto engolia sal
Afogava-se na chuva
As palavras eram temperadas com a amargura da alma,
E gritavam com os muros:
_ Filha duma puta!
_ Filha duma puta!
No que pensavas enquanto me beijava? Enquanto falava que me amava?

Dobrando a esquina
Repugnava com o cheiro do mendigo,
que atirado na calçada
Tem sua vida decepada
E luta contra a lucidez da vida desgraçada

Lembranças
Tormentos
Duras ânsias
Maldita é
a esperança

Abriu a porta
A casa ainda estava perfumada
Limpa, arrumada
As roupas ainda estavam no armário
Todas aprumadas

Ela havia deixado um recado na porta da geladeira:
_ Tua camisa branca foi passada e guardada.
Me espera pro jantar? Logo estou de volta.
Te amo.

Relia o bilhete buscando
apagar da memória o e-mail recebido pela manhã:

Ontem quando te abracei
Logo depois do jantar
Quase desabei
Alguma coisa mudou
A culpa não é tua
Tampouco minha
Por favor, entenda
Não voltarei para casa
Não me perguntes para onde vou
Hoje está chovendo
Mas no domingo fará sol
Acredite!
Acabei de ouvir no rádio,
que hoje
tocou pela última vez
a nossa canção de amor.
Ouça:
Terás teus três filhos
Não duvide do amor.
Quero te ver bem, meu bem.
Até breve!

Chorou
Encerrou a lembrança,
Apoiou-se na cama
Tirou os sapatos
Deitou com a roupa molhada,
Misturado com a sujeira dos dias sem ela.

Ainda pensou:
_ Amanhã me atiro nos braços da primeira mulher,
Quem sabe até escrevo um samba pra falar de amor:
Posso esquecer você, tu vais ver...
Sorriu,

A embriaguez deitou com ele

E dormiram abraçados.

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